15M, a esquerda e aqueles maravilhosos anos

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Quase todas as teorias da conspiraçom sobre o 15M lim-nas no primeiro mês do movimento, há um ano. O certo é que estou de acordo num tema com todas ellas: o 15M cargou-se a esquerda de toda a vida, a radical e a reformista, essa que precisamente levava “toda a vida” a anos luz da gente. E parece-me bem. De repente, assim, de um dia para outro, essa gente saiu à rua e fijo-se cárrego de gestionar a política e a sua vida sem pedir-lhes permissom. Isso parece-me estupendo, é realmente revolucionário. A gente saiu com outro “programa” centrado na denúncia da banca, as lacras do neoliberalismo, a farsa de democracia, o tema da vivenda, da sanidade, da educaçom, da autogestom, do apoio mútuo, da revoluçom!! A “esquerda” nom sabia sequer que existissem centos de miles de pessoas que pensaram por si próprias, que “de facto” fossem anticapitalistas pola sua praxe mais que polo seu discurso formal... e alucionou, ou melhor dito, nas semanas posteriores ao 15M entrou em estado de shock. E ante a falta de explicaçons (que tiveram dado fé do seu próprio fracasso histórico) buscou na lixeira onde encontrou um par de corrícolos suspeitosos e aireou-nos como se fossem a prova inquestionável de que o 15M era umha montagem com controle remoto (algo mui próprio de ministros do interior e também do estalinismo). Eu nom aguardava outra cousa de certa gente e de certos grupos, a verdade seja dita.

Recordo a primeira Assembleia de Arganzuela e os cansino de La Traba de Legazpi sem poder dissimularem a sua desconfiança perante a reuniom espontânea de mais de 1800 pessoas no parque. E nom me olvidarei nunca de todas as burradas que se publicárom em La Haine e em Kaos en la Red sobre o 15M como experimento “do poder”. Ou umha nota de um “Ateneu Republicano” desejando abertamente o fracasso do movimento. Ou um tal Marat, que desde o seu blogue chegou a convocar umha concentraçom CONTRA o 15M, um domingo, em Tirso de Molina.

Há um ano todas estas correntes da “esquerda radical” (entre as que haveria que incluir o antifascismo tribu-urbanista, as diferentes correntes vermelhas e demais grupúsculos da galáxia marxista-leninista e do frente de libertaçom de judeia) estavam em pleno processo de descomposiçom. Apesar disso, desvinculados da realidade, mui longe da gente, sentiam-se cômodos no seu micromundo de micromanifestaçons, micropalestras, microfestas, microwebs, microcoletivos e microimpato na sociedade. Chegou o 15M e como um furacám ventilou o ar enrarecido e o tabernáculo no que se tornara o “anticapitalismo” madrileno.

Hoje vejo nas Assembleias e nas Comissons do 15M dezenas, por nom dizer centos de “quadros” (por empregar a velha gíria), gente preparadíssima, inteligente até dizer basta, valente, que num ano enriquecérom a sua experiência e conhecimento político sobre a realidade de tal jeito que um velho militante da “esquerda dura” nom seria capaz de conseguir ao longo de umha década. Porque essa era precisamente um dos sinais de identidade dos nossos velhos revolucionários: a sua incapacidade para aprender, para ampliar e enriquecer o seu discurso e sobretodo a sua explicaçom acerca do que passa ao seu redor, a duas quartas da sua cara. As cousas só sucedérom umha soa vez nos seus textos sagrados, nunca no mundo real, demasiado complexo e escorregadio para a sua “ciência política”. Pegados como umha mosca a grude de mel, levavam anos a recitar os mesmos salmos ao tempo que o seu mundo, o mundo, se derrubava diante dos seus narizes. Enquanto umha geraçom de dezenas de miles de pessoas preparava-se para tomar as ruas, eles viviam encerrados nos seus locais e as suas tabernas, convencidos, empenhados em que nada mudasse, em que todo continuasse a ser igual para que o seu mundo e a sua forma de vida se mantivesse intata. Sem sabê-lo eram (e continuam a sê-lo hoje) conservadores, e demonstrárom-no com a sua reaçom de rejeitamento à mudança, ao novo movimento. A sua aposta foi aferrar-se ao já conhecido, ao já explorado sem arriscar na velocidade, a incertidom e a vorágine do que se punha em marcha. A sua estratégia foi o infúndio, a intoxicaçom, as dívidas, airear nomes. E aí os tendes, a um ano da tormenta, fora da cena, desaparecidos, outside.

O 15M redifiniu muitas cousas, a primeira de todas o universo político da velha guarda. Deu-lhe a volta como a umha meia e enriqueceu a okupaçom, o feminismo, colocou no centro da açom política a desobediência civil, massificou-na, dignificou-na perante milhons de pessoas, acabou com a “contrainformaçom” e substituiu-na polo enjámio comunicativo (esta vez a sério), rompeu com a “clandestinite” e transformou-na em visibilidade, liquidou o tribu-urbanismo e o gueto, levou a rebeldia e a resistência lá onde ninguém tinha chegado ainda. E por riba de todo deu saída de forma racional e criativa a um montom de sentimentos de rechaço ao mundo atual, sim, ao capitalismo, sem recorrer a palavros que matam as ideias e desmobilizam as pessoas.

Havia miles de pessoas “como nós” mas nom as tinham visto nunca, nom sabiam sequer nada acerca da sua existência. Isso nom estava escrito nos seus livros. No dia que saírom de umha vez todas juntas, à rua, há um ano, os nossos velhos revolucionários pensárom que aquilo era umha miragem, umha montagem, umha alucinaçom; e como o Quixote, arremetérom contra elas, lança em alto. Por sorte já nada voltará ser como antes. Nem nós, nem eles, nem ninguém.

 

Franz Biberkopff

Madrid 15 maio 2012

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