21/06/12

Erigir-nos em força material

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Que fazer? A resposta é simples: submeter-se mais uma vez à lógica da mobilização, à temporalidade da urgência. Sob pretexto de rebelião. Expor fins, palavras. Tender face o seu cumprimento. Face o cumprimento das palavras. Enquanto isso, deixar a existência para mais tarde. Pôr-se entre parêntese”.

Tiqqun, “Como fazer?”

 

Em gíria carcerária chamase-lhe “autocarro” ao bloco de fileiras de cadeiras de plástico aparafusadas no chão perante a televisão. Aparafusadas à ditadura da unidirecionalidade do espetáculo, em fileiras que proíbem o círculo do comum. No “autocarro”, permanecemos, mais ou menos, nos espaços que temos desenhado para a dissidência. Sem dúvida, a nossa televisão emite os filmes mais “alternativos”e as palestras sobre a última “revolução”, mas continuamos aparafusadas. E se moramos na sociedade do espetáculo onde a vitória é sermos retransmitidos, que maior prazer do que converter-nos a nós próprios em reality show? Eis a nossa vida, as nossas ações, “autotelerretransmitidas” em vídeos e twitter. Para nós rematou já esse tempo. Nem mais abaixo-assinados, jantares populares a 20 euros, nem apresentações de livros em copyleft que repitem como um mantra da passividade as milhares de cousas que já sabemos que vão mal no mundo.

Cansamos-nos de acumular dados do desastre com o gozo de quem acumula “razões”, contar como usurários o dinheiro que nos rouba Espanha. A estupidez da satisfação do “já vos dizia eu”.

O conhecimento verdadeiro do bem e o mal não pode reprimir nenhum efeito na medida em que esse conhecimento é verdadeiro, senão só na medida em que é considerado ele mesmo como um afeto.

Na medida em que se erija em força material, em comunidade de cumplicidade e solidariedades. Cansados de coincidir nos locais sociais, agora queremos volver a encontrar-nos. Tecermos interdependências para deixar de depender do Capital. E destruí-lo.

A implosão no independentismo, há já uma década, do modelo de organização dos centros sociais foi o nosso maior sucesso coletivo. Mas não é suficiente. Antes de criar trincheiras e centros de operações, convertemosnos na vanguarda cultural de um país no que as elites culturalistas desertam; basta já de fazer-lhes o trabalho sujo e esquecer o que somos. Voltemos para a vida, deixemos de aceitar esse posto de “frente cultural” que parece que os partidos nos têm designado. Porque há mais “política” na escolha da disposição espacial de um centro social, do que na eleição congressional do último “-ismo” a que subscrever-se.

Converter os centros sociais -ainda os que nem se chamem assim- em embriões da nova comunidade nacional. Retomar a sabedoria das nossas velhas, as suas tecnologias igualitárias -pois estamos a mercê do Estado à mínima cárie, mas também ao mínimo conflito entre nós-, as suas habilidades para a sobrevivência. Mas também do novo: as cooperativas de fabricação vicinal de biodiésel nos EUA, a produção comunitária e descentralizada de eletricidade no rural de Cuba, os sistemas de autodefesa dos Black Panthers, a saúde autogerida do País Basco, a autêntica fraternidade redescoberta polas feministas.

O patetismo da política nacionalista, esse cadáver o que continuam a medrar-lhe as unhas, o seu ciclo de euforia-frustração crescente, o saber fazer de quem nunca teve nada, a prática da sobrevi vência do malandro. Vinte e cinco anos praticamente sem interrupções com independentistas galegos nas cadeias espanholas, dão também boa mostra de um acervo cultural incalculável. Para a guerra e a ternura. Temos um povo colonizado e oprimido desde há séculos, mas também os seus conhecimentos para resistir. Os do avô,que lembra como agachavam os foucelhas na casa, a mulher que sabe o jeito de levar notas sem chamar a atenção, a criança que sabe do que se pode falar e do que não, ou o operário industrial que “por se acaso”, sacha nos domingos na horta urbana.

Chegou a oportunidade, na crise, para as que levamos toda a vida nela.

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