13/02/12

Garzón. Depoimento pessoal e ponto final

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«Não deixemos que os nossos déspotas mintam, escrevendo a nossa História»,

Louis-Auguste Blanqui, cit. em George Steiner, Os Logocratas, p. 39

 

FECHO aqui a minha participação na conversa sobre Baltasar Garzón, com um testemunho pessoal acerca da década e meia que levo estudando o mal chamado «problema basco».

 

Sobre ele escrevi nas páginas do último jornal onde trabalhei durante 13 anos, o Expresso.

Sobre ele fui proibido de escrever nas suas páginas pela então direcção desse jornal, em 2001.

Sobre ele escrevi livros ou participei em obras colectivas com jornalistas, investigadores e autores de outros países.

Pelo conteúdo desses escritos sobre ele, jornalistas e editores portugueses e não só tiveram a sua dose de pressões e «problemas».

Filmei-o e vi censurado o meu filme pela SIC, inicialmente interessada e, em sequência, por todas as grandes estações televisivas da Europa anti-terrorista de 2003.

Sobre as minhas relações com ele fui interrogado pela divisão anti-terrorista da Polícia Judiciária, então ainda chamada DCCB, durante longas horas, por diligência ordenada pela Audiencia Nacional de Baltasar Garzón.

Pelas minhas relações com ele, fui «interpelado», confrontado e intimidado por persuasivos e «descaracterizados» agentes policiais espanhóis, durante alguma das minhas deambulações locais, como repórteer.

Devido ao que imaginaria ser as minhas relações com ele, ou por qualquer outra razão, fui objecto de operações de vigilância do SIS.

Pelas minhas relações com ele fui caluniado e indemnizado pelo circo mediático madrileno, com os inerentes pedidos de desculpas, publicamente forçados pelo recurso aos tribunais portugueses.

Vi as minhas relações com ele serem efabuladas pela abjecção pseudo-delatória dealgum «jornalista» meu superior hierárquico em autos judiciais.

Com ele aprendi ainda o peso adicional do muro de silêncio que envolve toda a  injustiça emudecida.

 

Aprendi a frieza de homens vingativos e cupidos, à espreita de uma colherzinha de poder que pudesse para eles sobrar.

Aprendi, a juntar ao meu, o medo de homens e mulheres sérios, diante dos quais a precariedade real ou suposta das suas existências os conduziu ao papel de testemunhas silenciosas.

Aprendi também a auspiciosa fraternidade de homens e mulheres extraordinários, agindo ao modo de Séneca, «sem medo nem esperança». Aprendi o calor intenso da solidariedade, ainda que de reduto, ainda que acossada, silenciada.

Aprendi, como na epígrafe de Sophia, «a alegria e a coragem dos combates desiguais».

 

Certo será que nem sempre terei conseguido estar à altura. Outras vezes tê-lo-ei. Umas por puro acaso, outras por razão e vontade. De nada me queixo nem vanglorio, nesta história de combate, em que todos e cada um nos limitámos a desempenhar, para além dos nossos nomes, os nossos postos e papéis. Nada de pessoal me move, por isso, contra nenhuma das personagens que protagonizam todos estes episódios tão adversos quanto naturais e cujos rostos e vultos vejo desfilar-me diante dos olhos ao escrever-vos estes parágrafos.

 

BEM mais importante, porém, é que, ao longo de todos estes anos, centenas, milhares de homens, de mulheres, de jovens pouco mais do que simples meninos e meninas, de outra terra, de uma terra punida e inabalável, centenas e centenas dessas pessoas relegaram, com o sofrimento a que se viram submetidos, para o seu devido lugar, de pequeno rodapé, tudo o que nos parágrafos acima vos deixei descrito. Conheci muitos deles. E conheci, caído sobre todos eles, o doloroso círculo de ferro do silêncio.

 

Um silêncio tanto imposto pelos seus esbirros no fundo das masmorras, quanto pelos seus mandantes e cúmplices nos elegantes  palácios dos poderes governamentais, parlamentares, régios, presidenciais,  quanto ainda pelos corredores secretos dos templos judiciais ou, por fim, pelas salas mundanas dos media tão cosmopolitas e sorridentes quanto amordaçados e, por isso mesmo, tão bem remunerados.

 

Foi por eles mais do que por mim, a quem, em boa verdade, nada de especialmente grave sucedeu, que reagi ao ver tanta gente genuinamente iludida a propósito do recente desenlace do caso Garzón. Escrevi já muito sobre ele. Tratei de publicar dados, informações, entrevistas, artigos, tratei de fornecer referências bibliográficas para que, quem quiser, possa saber exactamente com quem está, neste caso, a solidarizar-se ou não. E possa saber, já agora também, quando evoca o antifranquismo das diligências de Garzón, a que mãos está a confiar a memóriae a História antifranquista, bem como a responsabilidade de contá-la.

 

Compreendo, porque jornalista profissional durante 21 anos e investigador dos media, num âmbito académico, há mais de meia década, o poder de fogo da propaganda. Compreendo como, ao contrário de alguns que, pela sua posição, não podem não saber, muitos outros, a generalidade dos outros, pela sua posição, não podem simplesmente saber. Deixo de compreender quando, perante a informação, quem quer que seja continue a agir como se ela não existisse e lhe não tivesse sido facultada. O que guardo em juízos de valor, não poupo, nesta circunstância, em irredutível incompreensão.

 

Daí ter procurado deixar uma série, para mim monótona, de contributos acerca de um assunto de que, para o mal e para o bem, tive de aprender muito e com o qual tenho, no que de pessoal pudessse assistir-lhe, contas saldadas de há longo tempo. É evidente que Garzón foi afastado da magistratura espanhola com uma desculpa que é tão mais «esfarrapada» quanto provém da mesmíssima magistratura que o entronizou. Trata-se da mesma mecânica de justiça que ele praticou,  embora não se trate da mesma dimensão da injustiça. Garzón não pode ser comparado às vítimas que a instantzyajudicial espanhola fez e de que aqui me ocupo, pela minha voz e pela voz de outros.

 

A sua exoneração não tem, de resto, nada que ver com causas tão nobres quanto os seus arremedos de justicialismo teleguiado e infértil contra ditadores senis do outro lado do mar, contra «terroristas» oficiais do lado contrário do mundo, e muito menos contra a ditadura que assolou a sua terra e da qual ele não só nunca foi vítima como sempre foi tributário e, à medida dos tempos e das formas, continuador.

 

Ao contrário do que muitas pessoas, decerto que umas por boa-fé, outras por simples frivolidade mundana ou comprazimento ignorante, outras ainda por pura condescendência intelectual, para já não falar, naturalmente, nas que, de outra série, possam simplesmente ter interesse no negócio, ao contrário dessas muitas pessoas, partilho (e, sobretudo, pratico, neste caso relativamente a Baltasar Garzón) a ideia de Kundera segundo a qual a revolução é a luta dos homens contra o esquecimento. Junto-lhe a epígrafe de Louis-Auguste Blanqui, alguém que, pelos seus 37 anos encarcerado, há-de ter sabido do que falava. Não confiramos, pois, aos nossos esbirros o póstumo direito adicional de contarem a nossa História. Seja a do franquismo, seja a do tardo-franquismo ainda mais inextinto do lado de lá da fronteira do que o pós-fascismo do lado de cá. Seja outra qualquer.

 

Porque permitir que isso aconteça nos modela, nos enfraquece, nos trivializa, nos desumaniza à força daquilo a que Sloterdijk chamou «a razão cínica», por isso e só por isso me alonguei mais do que pretendia escrevendo-vos sobre Garzón. Quem leu e compreendeu, óptimo! Quem não leu, não quis ou não conseguiu perceber, porque a História não é só o passado mas também o passado por vir, haverá sempre mais marés do que marinheiros.

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