Mudança de perspectiva

Versión PDFVersión PDF
bandeira pátria.JPG

 

Aos luitadores e luitadoras deste País

condenadas ao cárcere e a dispersom

 

Houvo um tempo em que mantivem com honestidade e conviçom a ideia de que construir o projecto político para a liberaçom nacional deste país devia vir do acordo básico entre umha série de projectos fraccionais independentistas, a unidade de acçom prolongada entre estes, a criaçom -a partir deste trabalho em mao comum- de condiçons objectivas e, sobretodo, subjectivas, qualitativamente superiores às que hoje conhecemos, e padecemos, e, finalmente, a afluência a essa agra comum -que construiria neste processo umha confiança e referencialidade sólidas- dum difuso independentismo sociológico. A chave da questom residia, pois, numha primeira fase, em alcançar o acordo entre pequenos partidos e construir um espaço politicamente habitável que possibilitasse a ilusom e activasse umha acumulaçom de forças real.

 

Depois de anos de tentativas, paciência e dedicaçom, devo reconhecer, dando em parte a razom aos agoreiros que anunciavam o fracasso anunciado da estratégia, que conceber a construçom do projecto independentista de que carece este país como um entendimento e sumatório de siglas pré-existentes que sentem as bases dessa agra comum é um impossível absoluto.

 

É-o –e nom pretendo aprofundar nesta questom- porque as pulsons de auto-afirmaçom tribal, o vanguardismo de congresso bianual, os personalismos -ridículos e subtís-, o seitarismo compulsivo, a incapacidade de pensar en grande -para além dos marcos da própria leira-, a comodidade do conhecido, o medo, etc. tenhem força suficiente para abortar a tentativa mais paciente e elaborada. Penso que Antom Santos aplaudiria esta conclusom como eu no seu dia aplaudim a sua auto-crítica na III Assembleia Nacional de NÓS-UP a respeito da errónea política de alianças que a AMI definira para fazer possível o também fracassado Processo Espiral.

 

Assim, sem cair na antipolítica, tam cara para os que confundem o reformismo com as ideias de organizaçom e direcçom, acho que a construçom do projecto político deve explorar hoje novas vias. Sintetizo: a necessidade de levantar umha referencialidade politica independentista está fora de questom. Concebe-la como acordo ou sumatório de siglas pré-existentes é umha perspectiva condenada. Assim as cousas, deveremos entende-la como a uniom dos que sim estám por construir, sem reservas mentais, sem objectivos particulares, nem duplas linguagens, à margem de filiaçons e procedências, fossem pessoas individuais, fracçons políticas, etc. Desta nova óptica, forçosa e forçada, tanto tem já se o grupo A, B, C ou Z decidem distanciar-se da tarefa comum. Alá cada quem com a sua responsabilidade e prioridades. Provavelmente, o  reconhecimento fáctico aos nano-partidos dum certo direito de veto sobre as dinámicas gerais do movimento à hora de enxergar a tarefa de construir essa agra comum, foi um dos erros mais notáveis cometidos para fazer efectiva essa tarefa.

 

Agora laiam-se alguns de que Causa Galiza já nom é o que foi. Vaia. Certamente, seria preocupante que umha iniciativa sócio-política como esta continuasse fidel ao esquema inicial vendo as voltas que deu o mundo em apenas cinco anos. Anunciam o abandono deste rascunho de agra comum e denunciam, publicamente, num exercício nom isento de cinismo, que quem sachárom e continuam sachando nela tenhem vontade de “control”, som “dirigistas”, “seitários”, “antidemocráticos”, “nocivos”, etc. A verdade é que há algum tempo este ruído de comunicados teria-nos tirado o sono algumha noite, mas hoje –com franqueza- ouço-o como o som que fai o frigorífico da minha cozinha pola noite, tam insignificante e monocorde que nom me impede conciliar o descanso. É mais: compartilho com outros companheiros de tarefa certa sensaçom de alívio e tranquilidade de espírito por poder-nos dedicar a construir em vez de fazer encaixes de bolilhos com quem, da nossa óptica, parecem preferir o status quo actual. É realmente significativo e produz um íntimo orgulho que estes mesmos sectores aos que me refiro acunhassem para nós a despectiva denominaçom de turbomilitantes.

 

Levantar a Casa Independentista, à margem do que decidam ou deixem de decidir quem construírom cativas cavanas de palha sem perspectiva estratégica para o temporal que se avizinha, é tarefa titánica ante a que nom cabe a sobérbia. Neste sentido, o menor dos factores contrários ao esforço é a vaga de impropérios, desqualificaçons e acusaçons que se cernirám sobre quem se ponham a fazer os deveres, botar os cimentos ou erguer paredes de tijolos. Os maiores, as múltiplas eivas a superar, a escasseza de recursos, a dimensom do esforço intelectual necessário para estarmos à altura dumha realidade tam complexa como a presente… E o inimigo, que sabe, como bom cirúrgico, onde deve aplicar o bisturi. Contodo, o esforço paga a pena e ainda que nom trunfemos e vamos intentá-lo com todas as nossas forças. Todo antes que continuar esperando pola boa disposiçom de minorias presuntamente preclaras.

 

Para além da surda, miserável e cansativa guerra de guerrilhas que se libra entre fracçons independentistas ante a perplexidade do sentido comum e a satisfacçom do inimigo, temos um país de quase três milions de pessoas ao que dirigir-nos e convencer. Esse é o nosso mercado. Nom se trata de ganhar a A e B para ver se, assim, C, sae da hiberno-militáncia e a ambigüidade, mas de agir já. Deixemos de molestar portanto a quem prefirem a segurança da capela familiar, com os seus ritos internos, os seus santons inquestionáveis, a tranquilidade que oferece a familiaridade da própria leira e a comodidade de auto-proclamar-se independentista sem sufrir os rigores de quem converte a etiquetagem política numha praxe diária e persistente. É tempo de acçom. A obra deve ser para todas e todos os que queram participar nela.

 

Joám Peres Lourenço, militante independentista.

 

Outras colaboraçons...
Publicidade