O BNG na encruzilhada

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A conclussom da Assembleia Nacional do BNG é simples: o bloco está roto em duas metades. Nengumha das duas almas do nacionalismo foi capaz de impor-se com claridade, no BNG há já umha guerra de posiçons, as batalhas nom fam que remate o conflito, só que algum contendente avance uns poucos metros. O grande ganhador deste cônclave foi o MGS que se converte no grupo capaz de conceder a maioria a uns ou outros. Como já fijo com a eleiçom de porta-voz nacional e de candidato à Junta, espera-se que apoie quase em exclusiva à UPG.

 

O processo assemblear que rematou a fim de semana do 29-29 de janeiro tivo um desenvolvimento quase inédito na cultura política do BNG, derivado do alto nível de conflitividade que foi in crescendo desde o fim do bipartito. As novas tecnologias e os meios de comunicaçom tradicionais reflectírom os desacordos desbordando o secretismo que normalmente rodeia os debates internos na fronte. Tanto ApU como o MGS denunciárom internamente esta mediatizaçom da assembleia mas à vez empregárom as suas webs para acusar publicamente à outra parte de deslealdade e de tentar virar o BNG cara a direita e destrui-lo. Este cruzamento de acusaçons ocupu boa parte das intervençons durante o processo assembleário, isto nom é casual, forma parte de dous jeitos diferentes de entender a organizaçom e a açom política, em porte umha reediçom do “Integrados contra Apocalípticos” de Eco.

 

Jeitos diferentes de entender a organizaçom enfrontados que provocárom também que o texto a debater na assembleia nacional seja umha proposta integramente da UPG que decidírom nom acordar com o resto das sensibilidades. Umha leitura comparada das outras propostas de textos realizadas por cada um dos grupos revela que existia a possibilidade de incorporar algumhas destas achegas ao texto base da UPG sem que este perdesse a sua intençom política e a sua coerência. Mas a UPG decidiu marcar linha ideológica e cenificar a sua decidida política, e aproveitou a sua maioria para dar-lhe aos seus textos a qualidade de “oficiais”.

 

Se bem era possível algum tipo de mínimo comum é certo também que entre os textos apresentados havia diferenças de fundo. As propostas da UPG e do MGS tenhem umha linha bastante similar mas tanto +Galiza como o EI apresentam visons particulares sobre o futuro do BNG.

 

A UPG apostou nesta assembleia nacional polo que podemos resumir em “um passo atrás para das dous adiante”, volver às essências do seu modelo de açom política e a um discurso mais de esquerda (no que a UPG entende por esquerda) para recuperar o apoio social. A UPG situa a militância como figura central para a recuperaçom da vitalidade do BNG e pretende umha ampliaçom desta base militante. Aumento da base militante acompanhado com umha maior coordenaçom com as organizaçons sociais nacionalistas de cara a incrementar o protagonismo mobilizador do BNG, e com esse impulso tomar o poder institucional.

 

O plano da UPG nom deixa de ser um retorno ao passado que nom tem em conta a ruptura da representatividade das organizaçons de esquerda nos últimos anos e que também afeta ao BNG. A ruptura entre o BNG e a sua base social é um fenómeno que vai mais lá da modulaçom do discurso, as causas som provavelmente o tipo de políticas aplicadas quando se dispujo de poder e a falta de interesse do BNG-organizaçom nas inquedanças reais da sua base social. A contínua perda de apoio eleitoral desde o ano 99 é um sintoma claro dessa desconexom. Neste contexto resulta contraditório que a UPG pretenda ampliar a base militante. Também parece pouco adequado tentar recuperar o discurso de esquerdas mediante um processo de clarificaçom ideológica interna, quando precisamente o que seria interessante é nom pechar debates internamente senom socializar a construçom dum ideário que permita representar os interesses de algum segmento social da realidade galega.

 

Também é mui discutível a capacidade mobilizadora dumhas organizaçons sociais nacionalistas cada vez mais em declive. Até a CIG, a mais numerosa em quanto a afiliados, que parecia manter um certo crescimento nos seus apoios leva um tempo claramente estancada e inclusive em retrocesso nos seus resultados nas eleiçons sindicais. Mas as propostas da UPG tenhem umha clara cor resistencialista e entoam um excluinte “nós sós” que pretende obviar estes dados e negar a realidade. Um exemplo disto é a inexistência de referência a algo com tanta repercussom social como o movimento 15m nos textos aprovados, sintoma da desconfiança da UPG a processos de mobilizaçom social que nom enquadrem no seu macrodesenho político-organizativo, e da sua interessada distorçom da realidade no debate político.

 

No seu conjunto os textos da UPG estám cheios de etéreas declaraçons de princípios, grandes absolutos mui discutíveis e abundantes doses de autocompracência, realmente parecem um panfleto extenso. Um exemplo de afirmaçom atrevida e autocompracência é a afirmaçom de que no último ano o BNG liderou a mobilizaçom social na Galiza que figura no informe de gestom do Conselho Nacional elaborado pola UPG. E entre princípios e afirmaçons atrevidas nom se desentranha qual vai ser a açom institucional do BNG, como vai exercer o poder que lhe entregam os seus representados, mais bem perde-se em debates e umha focagem totalmente internas. As únicas propostas claras e concretas da UPG estám no terreno organizativo, no funcionamento interno, chamando a atençom a absurda restriçom do direito à discrepância pública dos militantes, num momento no que a revoluçom das comunicaçons fai que precisamente se estám a redfinir esses conceitos de público e privado. Vai-se expulsar a militantes do BNG por discrepar com a linha da organizaçom no seu Facebook? Abrirám-se expedientes disciplinários àqueles que colgárom comentários sobre a assembleia nacional em direto no Twitter?

 

Os textos fôrom defendidos nas assembleias com a convicçom de quem defende um panfleto, primando os argumentos ad hominem, atacando a uns por direitosos, aos outros por sabotadores mediáticos e acusando a todos de querer destruir o BNG. A UPG sinalou continuamente a +galiza, os supostos herdeiros do “quintanismo”, como responsáveis únicos dos erros e as “desviaçons” do governo bipartito, como se eles nom tiveram participado no jogo. No meio dos reproches a UPG como um mago, mete um coelho na cartola e tira umha pomba umha e outra vez, aqueles que abandonárom a consigna de “autodeterminaçom” e fôrom a vários 25 de Julho berrando por um “estatuto de naçom” agora afirmam que a administraçom autonómica carece de nengumha virtude ou oportunidade de explorar nem tam sequer a curto prazo e defendem a construçom dum Estado Galego. Um conceito mui etéreo que parece indicar um giro independentista mas escapando a esta qualificaçom. Tam abstrato o termo como o processo de construçom do que tampouco se fala nos textos com claridade. Objetivos e meios pouco claros e análises superficiais fam da linha política que foi aprovada polo BNG umha autêntica quimera.

 

A alternativa à visom projetada pola UPG e o seu contorno estivo protagonizado polo Encontro Irmandiño e Máis Galiza que apesar das dificuldades iniciais decidírom apresentar umha emenda à totalidade das teses e umha lista elaborada conjuntamente. A atitude tam agressiva da UPG tanto no discurso como na disputa dos cargos internos e institucionais, tenhem muito que ver nesta convergência. Tanto EI como +GZ elaborárom um acordo mínimo que plasmárom numha emenda à totalidade dos textos que prosperou. O precipitado desta uniom nom frutificou num plantejamento político amplo e detalhado sobre como deveria ser a açom política do BNG, a emenda de EI e +GZ e como os textos da UPG, bastante genéricas, mas umha declaraçom de princípios. As concreçons como no texto da UPG estám mais no organizativo que no político.

 

Nesta emenda alternativa estabelece-se umha série de afirmaçons que fôrom objeto de forte confronto com a UPG, e ainda que nom criam um discurso plenamente coerente e totalmente novo sim que perfilam um caminho diferente. Resulta chamativo que se minimizara e se estám a minimizar estas diferenças, porque a visom que existe no BNG nom só é dumhas elites luitando pola quota de poder, senom que também está presente na base, e há em todo isto claros signos de esgotamento dum modelo do que todos os grupos dentro do BNG falam. Muitas vezes os debates de fundo no BNG cenificam-se dum jeito críptico, umha palavra ou um conceito pode significar mais alô do que parece, porque há umha história interna desse conceito. Assim as diferenças em vez de aparecerem como debates completos se centram num ou noutro elemento particular dum discurso mais amplo.

 

Na emenda da “oposiçom” estabelece-se de entrada umha definiçom voluntarista da naçom, em contraposiçom com a tradicional definiçom organicista de Staline trazida por Castelao ao nacionalismo. Em coerência com esta redefiniçom estabelece a necessidade de abrir-se à sociedade já que nom é preciso resistir na defesa de nengumha essência, mas bem è imperioso entender a naçom como um produto histórico que muta no temp, e as organizaçons políticas tenhem que acompanhar estas mudanças. Também é salientável a valorizaçom crítica mas mais matizada sobre as instituiçons galegas e europeias, e a declaraçom de querer manter umha relaçom de independência e igualdade com os movimentos sociais. Se no texto da UPG se marcava a centralidade no militante, a alternativa centra-se nos votantes, os simpatizantes, a base social do BNG como centro da sua açom política e organizativa. Num resumo um pouco simplisficador podemos ver umha clara aposta pola socialdemocracia com tintas altermundista e boas doses de keynesianismo que trata de recuperar a representatividade com um novo vínculo com a cidadania. Certamente algo mui coerente com o que socialmente representa o porta-voz da lista que defendia estes postulados.

 

As propostas de EI e +Gz podem ser tachadas de possibilistas, mas resultam umha via de açom mais adequada ao papel que socialmente está a desempenhar o BNG. Como força institucional o BNG tem as suas limitaçons mas também as suas possibilidades, entre tanto debate críptico-ideológico absurdamente maximalista nunca se reflexiona em como precisamente vencer essas limitaçons ou tam sequer chegar a elas. Um novo marco de relaçons com a maioria social à que teoricamente se dirige que lhe permita à base social estabelecer algum controlo sobre a organizaçom e um programa realizável ainda que realmente comprometido seria um grande avanço neste contexto de ruptura entre reprensentantes e representados. Tender novas pontes de confiança com a sociedade e profundar na sua açom institucional podem fazer que o BNG poda volver a ser umha ferramenta útil no seu terreno.

 

Como costuma acontecer no BNG um debate real só se pode produzir fora da cenificaçom assambleária. Na cafetaria, nos corredores, fumando, nos intermédios,... únicos espaços que escapam à disciplina de grupo imposto por vontade própria ou polas circunstâncias, e agromam matizes em posiçons defendidas com veemência a 20 metros. Dada a acumulada conflitividade nesta assembleia no cenário cenificou-se mais claramente a divisom. Mas os resultados na eleiçom do conselho nacional e do candidato nom fôrom tam dispares. Neste confronto qualificado como final, ninguém ganhou com claridade mas umha parte mantém a vantagem suficiente como para impor as suas decisons na matemática dos votos.

 

O conflito sobre o futuro do BNG continua aberto porque os vencedores nom conseguírom convencer a quase a metade dos militantes, nom houvo catar-se, só umha repetiçom das posiçons prévias com um resultado similar ao da última assembleia nacional, como na Primeira Guerra Mundial cada quem luitou a morte para avançar uns poucos metros. Os nom convencidos nom acreditam nas capacidades da atual direçom nem no seu programa. Nom só é um problema de diferenças, há umha profunda desconfiança entre as duas partes do BNG.

 

As forças centrífugas estám a ser neste momento muito mais fortes que nunca, está-se a abrir nas mentes dumha parte do BNG e da sua base social umha janela de mudança. As continuadas chamadas à unidade confirmam a possibilidade real dumha imporante cissom. A contínua perda de apoio eleitoral do BNG confirmam os argumentos de aqueles que denunciam umha progressiva desconexom com a socieade, umha grupusculizaçom do nacionalismo, ainda que as dimensons do grupúsculo ainda sejam consideráveis. É difícil prever o que vai passar nas seguintes semanas, ainda que é seguro que vai haver baixas no BNG, a questom é se vai ser um movimento de indivíduos ou coletivo, e se esse movimento de militantes finalmente vai formar parte de algumha alternativa política ao BNG. Fazer previsons a meio prazo é arriscado, mas tenho muitas dificuldades para ver o enganche desde o BNG na sociedade atual, e penso que as cousas continuam o seu curso e o declive eleitoral vai-se acentuar mais e o valor da unidade vai perder muitos inteiros. Umha parte dos militantes do BNG vam-se ver apartir de agora numha contínua encruzilhada, o caminho diferente ao da organizaçom sempre vai parecer escuro e sinuoso, mas pode ser umha possibilidade a valorizar se o bloco vai claramente ao abismo.

 

NOTA: O artigo foi rematado de redigir no 9 de fevereiro.

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