15/02/12

Entrevista a Héitor Picalho arredor da figura de Johám Jesus Gonçales (2ª parte)

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César Caramés/ Héitor Picalho (O Banho, Cúntis, 1.974) é, sem dúvida, um dos maiores conhecedores da figura de Johám Jesus Gonçales (Sebil, Cúntis, 1.895-Boisaca, Compostela, 1.936). Além de ser autor do completo ensaio Xohán Xesús González: un precursor do soberanismo galego, é un dos grandes promotores da recuperaçom do patriota assassinado. Membro do Fervedoiro de Cúntis e activista declarado da causa soberanista, é tamém reconhecido polo seu labor literário, artístico e jornalístico em que amostra esse fundo conhecimento da história da comarca do Úmia e esse compromisso que o caracterizam. Nesta entrevista em dous tempos, achegamo-nos a ele para alumar o rosto pouco conhecido dum canteiro de Sebil que deveu em fundador e referente do arredismo marxista de começos do século XX e que caiu fuzilado pola pouta do fascismo espanhol no genocídio encetado em 1.936.

 

 

[2ª parte]

 

Como é o arredismo de Johám Jesus?

 

Primeiramente, Johám Jesus parte da República, nom pode entender a política fora dum estado vivo. Desde essa óptica, logo, evidentemente e como os seus contemporâneos, reconhece a Galiza como, e cito textualmente, “(...) unha nazonalidade ibérica, con direito, pol-o menos, a ser autónoma. Con direito a ser ceibe. Con direito a empregar a sua lingua, orgaizar as suas institucións, artigoar n-un Código fundamental as suas leises, dar unha base centífica â sua economía, esprotar axeitadamente as suas fontes de riqueza, dando á vida de todol-os seus habitantes un novo senso e unha ourentazón diferente da que agora ten”. Isto dizia desde o manifesto da USG, mas a sua ideia arredista jaz no seu consciente desde os alvores dos anos vinte.

 

 Velaqui a chave do seu pensamento: primeiro soberania total, a independência para Galiza, depois, como bom marxista, uniom em pé de igualdade com todos os estados que quigermos numha ideia global de confederaçom mundial. Estas ideias estám bastante bem esfrangulhadas na sua obra Regionalismo, Nacionalismo, Separatismo (editorial Nós 1933). Velai que podamos ver que desde os anos 30 as suas ideias eram muito mais avançadas (ou modernas, vinculadas às vanguardas políticas europeias) em comparança com os galeguistas. Nesta achega que “todo povo oprimido, aliás, como todo indivíduo tiranizado, quer por potências exteriores quer por oligarquias internas, tem necessidade de se libertar”.

 

Além disto tamém engade, entre outras muitas ideias, que nom unicamente merecem a liberdade os países oprimidos por potências exteriores, mas os que o som desde os seus próprios estados. Nom é isto ter um conceito claro –incluso dentro do que hoje conhecemos como Direito Internacional- do que supom a soberania dos povos (que nom dos estados). No caso de nom o compreender com essas palavras, Johám Jesus sublinha: “Os países que hoje formam ainda docilmente a triste realidade da Espanha unitária sentem a tirania como imposta por unha potência estrangeira que é o Estado centralista espanhol, que tem pisado e pisa a soberania dos mesmos”. Por conseguinte, para ele a soberania reside nos povos que configuram o mapa estatal, nom no estado mesmo, como confusamente se tenta assumir na actualidade.

 

-Conhece-se como reage à proclamaçom da I República Galega de 1.931?

A verdade non tenho muitos dados sobre o assunto, sei que anda enleado em múltiplos projectos com pessoas da cultura compostelá antes mesmo desse ano, como por exemplo com a criaçom da Livraría e Editorial Niké (que fundara, no 1930 com Arturo Cuadrado Moure).

 

Mas no que atinge à República Espanhola, nom à galega, nom ficava muito contente com ela, posto que pouco tinha de verdadeira república (continuava-se co caciquismo e com certa saudade pola monarquia das castes dirigentes e oligárquicas). A este respeito basta ler o ensaio do que anteriormente figem mençom.

 

-A actividade política de Johám Jesus resulta um pouco controvertida no aspeito da sua variada  militância e criaçom de novas organizaçons. A que responde essa imagem de bulebule e “fazedor de partidos” como o qualificou o Borobó?

 

Johám Jesus é o protótipo dumha pessoa inqueda, dumha pessoa que anseia conhecer mais e mais cousas, que nom cansa de aprender porque para ele tudo –ou case tudo– é de interesse. Nom pode renunciar a aprender a talhar umha pedra ou a se fazer advogado, como tampouco pode renunciar a escrever ou a fazer frutificar umha organizaçom política. E quanto a isto, ele nom podia estar com os braços cruzados aguardando as mudanças que queriam realizar outros, tinha que ser motor de câmbio, ele tinha –desde a perspectiva sartriana– que ser um ser dinâmico, polo tanto inconformista e atento ao que acontece na sua sociedade próxima e no mundo. As suas ideias, quando menos desde o ano 1922, contemplam-se desde o nacionalismo e mesmo desde o arredismo (como dixo no jornal El Progreso da cidade de Pontevedra), e segundo o vemos no PSOE, evidentemente, absorve o que lhe era útil do socialismo e do marxismo para criar organizaçons como a já citada Uniom Socialista Galega, o Seminário de Estudos Socialistas (ambas as duas instituiçons nos alvores de 1932). Em 1931, um pouco antes de abandonar o PSOE, cria na capital galega a Agrupación Nazonalista Compostelana, no que por certo estavam Cavada Vasques, Carvalho Calero, Banet Fontenla. Johám Jesus tamém fai parte do Comité Central de Autonomia Galega, está em 1933 entre os criadores dum colectivo denominado Defensores de Santiago. No fevereiro de 1934, por mor dos resultados eleitorais, dissolve a USG; porém no abrente desse mesmo ano –ou no solpor do anterior– funda a Agrupación ao Servizo da Autonomía. Mália estar dessenganado da política e após ter avisado de que se vai dedicar de aí em diante a exercer como letrado e a diversos mesteres culturais, ingressa dentro de Izquierda Republicana. Nela fai parte da cerna mais dura do galeguismo, o que lhe deveu ocasionar nom poucos problemas. Em atençom a isto, o próprio Casares Quiroga chegará por agosto de 1934 a Compostela com a intençom de “reorganizar o grupo local de Izquierda Republicana”. A mediados do ano seguinte é expulso desse grupo político, mas por agosto de 1935 cria Vangarda de Esquerda Republicana, à que pertencerám Borobó, José Jeremías, Passim Romeiro, Ramom Esturao, Maximino Castinheiras…

Como vemos era um bulebule criador e criativo.

 

-Esta ânsia criadora nom se reduz à política, tamém abrolha abundosa  noutros âmbitos como o  jornalístico,  o editorial ou o artístico...

 

Ao longo desta entrevista falamos da sua actividade como escritor (de ensaio, de teatro, de romances, mas tamém de poesia), como jornalista (em mais de duas dúzias de rotativos), cria várias publicaçons periódicas (Trabajo, El País Gallego e Amañecer), é correspondente de vários jornais (os mais importantes El Socialista, de Madrid, e El Pueblo Gallego, de Vigo), é crítico de arte (nalgumha que outra ocasióm), comentarista desportivo, cria quanda Arturo Cuadrado –como declaramos há um momento– a editorial e livraría Niké, e cria o Crédito Literário Suévia; pretende constituir a Associaçom de Imprensa de Compostela, aparece (em 1936) na Associaçom de Escritores da Galiza, organiza comitês e banquetes de homenagem…

 

-É inevitável cairmos no arquétipo romântico do mártir libertador quando olhamos as circunstâncias que arrodeiam o seu assassinato. Que há de verdade nessa imagem de Johám Jesus à cabeça dos operários armados que defendem Compostela contra o fascismo espanhol?

 

Johám Jesus organiza quando o levantamento militar o Terço de Calo, que estava constituído por mais de meio cento de canteiros e labregos dos arredores do Concelho de Teio. A este pertencia Faustino Liste (irmao de Henrique Líster, chefe do V Regimento do Exército Republicano) ao que conheceu –junto aos seus irmaos (em versom dum sobrinho de Líster)– muito possivelmente no Sam Ramom da Anlhada (Cúntis), na freguesia de Sam Breixo de Arcos de Furcos de onde era oriunda a família Liste. Tamém estavam no Terço Ramom Esturao, José Touris Castro, Posé Miguéns… Por certo Faustino foi umha das testemunhas nas últimas vontades de Johám Jesus.

 

Quando estala o fascismo em Compostela Johám Jesus encabeça o Terço e passa por diante do Quartel de Artilharia, a hastear a bandeira vermelha (que os sublevados interpretárom como a bandeira comunista), mas que nom vinha a ser outra cousa que a bandeira da USG, quiçais a primeira bandeira soberanista galega (que era a fusom das cores galegas com a comunista).

 

Depois de ser apresado Johám Jesus e vários dos seus, após irem a “juízo” mediante  Conselho de Guerra por delito de rebeliom, som passados polas armas o 12 de setembro. Som fuzilados em Boisaca e enterrados em fossa comum. Alguns deles, como Faustino Liste Forjám, padeceu mil e umha torturas (amputárom-lhe várias falanges dos dedos os declarados falangistas) e supom-se que Gonçales non deveu correr melhor sorte. Essa noite fórom 5 os fuzilados do Terço de Calo…

 

-No assalto ao comboio, em Ossebe, é onde se esfarela a primeira resistência armada ao golpe do 36 na comarca compostelá. Como acontecérom aqueles factos? Qual era a importância daquela accom?

 

A Compostela chegaram novas de que um comboio cheio de muniçons, explosivos e armas para os fascistas ia passar, procedente de Vigo, o dia 22 de julho, polo que Johám Jesus e o Terço de Calo dirigem-se até essa estaçom ferroviária com a intençom de assaltá-lo. Confiados de mais ou algo ingênuos, quem sabe, nom contam coa presença dumha ampla escolta, que de facto estava constituída por umha dúzia de guardas civis e duas de fascistas. Os membros do Terço que ali nom resultam feridos, haviam ser pouco a pouco detidos. Porém, onda o caminho de ferro perde a vida aquele alcumado “O Ferreiro”.

 

A importância do facto nom reside em terem colhido as armas para defender a sua naçom, Galiza, e a República, mas por tomar todo o grupo umha actitude ofensiva e totalmente comprometida com a sua causa, por isso dias antes tomaram as instalaçons de Telégrafos e Telefones de Compostela; tempo no que fazia parte da resistência Carlos Luís Valle-Inclán, vinculeiro do egrégio escritor, secretário de Johám Jesus e, aliás, o seu protegido. Aquele, quiçais com o objecto de lhe salvar a vida –nom era mais que um mocinho- Johám Jesus desvia-o à Corunha.

 

-Após a desfeita, quais som os passos que dá Johám Jesus até ser apresado polo inimigo?

 

Johám Jesus depois de que já estava tudo perdido, desvia-se à sua terra natal, anda polas fragas das imediaçons e baixa ao lugar de Sebil. Cria-se inocente de qualquer delito, posto que defendera a República, a liberdade e os direitos civis. Imprudente, um dia baixa à feira do concelho da Estrada e ali é feito prisioneiro.

 

-Como se desenvolve o suposto processo judicial?

 

Como quase todos os processos judiciais desse tempo, um caso sumaríssimo, de clara indefensom, humilhado, interrogado até a saciedade –prévio ser possivelmente torturado- e, por último, o conselho de guerra resolve fuzilá-lo –junto a vários dos seus companheiros- por delito de rebeliom. A noite do 12 de setembro de 1936 as tápias de Boisaca bebem o regueiro de sangue vertido por Johám Jesus, Serafim Marinho Santos,  Faustino Liste Forjam, José Tourís Castro e José Pose Miguéns.

 

Três dias antes pronunciara as suas últimas vontades no interior da prisom –hoje Paço Rajoi-, sendo as suas testemunhas os citados Faustino Liste e José Pose. Na manda principal deste testamento indica que era o seu desejo que tanto as roupas que tinha na cela na que ficava preso, como os móveis e outros enxovais que tinha na sua casa compostelá fossem parar a Carme Pardo Martínez –denominada por ele como “su muchacha”, co ânimo de protegê-la. Esta dona, sem dúvida era a sua parelha (com a que nom casara mas com a que sim vivia na Rua Nova).

 

 

-Joham jesus nom duvida em botar mao dum fuzil para resistir o fascismo e defender as suas ideias. Qual é a sua opiniom sobre o emprego de estratégias armadas na luita de libertaçom nacional?

 

Tal e como Connolly, o Ché, os zapatistas, os movimentos anti-coloniais africanos dos 60-70... vê que umha via possível para “libertar a Pátria” é exercêndomos os uso das armas, impondo-nos ao inimigo. Quase seria um derrubar o caduco para construirmos a liberdade e o progresso. Isto fica mais ou menos visível no citado seu ensaio Regionalismo, Nacionalismo, Separatismo, era o ano 1.933.

 

 

-Dum tempo para cá estám a aparecer várias iniciativas populares em lembrança da sua figura. Que se fijo no Úmia, a sua terra natal?

 

Desde a Secçom da Recuperaçom da Memória Histórica da Associaçom O Fervedoiro vimos de desenvolver várias actividades neste eido, mas no que atinge a Johám Jesus Gonçales podemos sinalar que conseguimos que se lhe pugesse o nome dumha rua na sua vila natal; o concelho de Compostela acordou em pleno tamém conceder-lhe outra (ficamos à espreita), e solicitamos-lhe à Real Academia Galega que lhe desse um Dia das Letras Galegas. Figemos umha homenagem ao canteiro de Sebil quando elaboramos unha exposiçom sobre o seu pensamento, obra e compromisso vital e algum que outro acto mais.

 

Porém, nom somos o único colectivo que desenvolve actividades sobre ele. Velai o incansável esforço da Gentalha do Pichel (Compostela), ou mesmo da Asociación O Meigallo (tamém de Cúntis).

 

Com a Gentalha já tinhamos colaborado em várias ocasions por motivos culturais arredor da figura de Johám Jesus há um par de anos, aproximadamente, e com O Meigallo figemo-lo este passado para comemorar o passamento dos represaliados e fuzilados cuntienses durante e a partir do 36, além de muitos particulares, colaborárom muito activamente as associaçons: Xesús González Aboi (Caldas de Reis), Vagalumes (A Estrada), A Cabana (Moranha) e Portavezal (Cúntis). Fazia-se, para muitos, o 75 aniversário do seu passamento, e para outros o começo dum pesadelo interminável.

 

-Qual é o comportamento das instituiçons a respeito dumha figura tam incômoda?

 

Nom creio que as instituiçons vejam a Johám Jesus como umha figura incômoda, o que passa é que muitas pessoas que estám nas administraçons som desconhecedoras da grande importância que tem este personagem dentro do contexto da língua e da literatura galegas, assim como tamém no âmbito político: a ignorância é muito atrevida. Porém, de conhecê-la, sim lhes resulta incômoda, as mais das vezes por se tratar dum nacionalista (mesmo Novoneyra tamém é incômodo para alguns), dum republicano e evidentemente –mercê dos preconceitos sociais- dum livre-pensador. Se a isto lhe engadimos o seu carácter totalmente soberanista já non há jeito de enxergar a valia deste canteiro.

 

-Na tua opiniom como contribui a restauraçom de Joham Jesus ao ideário e à práctica do independentismo moderno, do arredismo actual?

 

Desconheço bastante este assunto, só sei que há pessoas e incluso colectivos em diferentes pontos da naçom que observam com admiraçom a figura de Johám Jesus Gonçales, em diversos aspeitos, e o que atinge ao direito de autodeterminaçom e à soberania da Galiza tamém é um deles. Quiçais muitos nacionalistas galegos deveram ver o que havia por fora do Partido Galeguista para poderem compreender o florescente que era o nosso país naquele tempo, e quê cousas som aproveitáveis para a situaçom actual. Evidentemente a contemporaneidade do pensamento de Johám Jesus fai-no merecedor, ainda hoje, de ser vanguarda, o caso é que cumpre abrirmos os olhos. 

 

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