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06 de Xaneiro de 2009

“A RAG, junto das instituições universitárias, dá cobertura académica à política nacionalista do 'Reino de España'”


ImageHernández foi professor de Linguística Geral e Crítica Literária no C.U. da Crunha, quando dependia da USC, desde 1974 até 1986, ano em que lhe foi discrecionalmente rescindido o contrato. Hoje é Professor de Ensino Secundário no IES Salvador de M., na mesma cidade.. Nasceu em Espanha no 1941, na cidade de Valhadolid, o que nom lhe impede sentir-se galego e comprometer-se com a nossa naçom. Tem numerosos trabalhos publicados em revistas como Cadernos do Povo, Nós, Ensino ou Agália. Participa em associaçons como as Irmandades da Fala da Galiza e Portugal ou a Associação de Amizade Galiza-Portugal. Actulamente é membro da recém criada Academia Galega da Língua Portuguesa, e por esta razom o entrevistamos para o GalizaLivre.org.

António, pode-nos explicar brevemente o quê significará a Academia Galega da Língua Portuguesa para toda a gente que trabalha em defesa da língua galega, quer do associacionismo, quer do independentismo, etc...?

O que é e procuram os ativadores e membros da Academia Galega da Língua Portuguesa consta nos Estatutos da Associação Cultural Pró AGLP (registada conforme com a legalidade) e as Normas de funcionamento da Academia Galega da Língua Portuguesa. Os Estatutos constam publicados no volume primeiro do Boletim da AGLP.

Antes de mais e sem pretender obviar questões espinhentas, tenho de afirmar (ou advertir) que ambas entidades são apartidárias: Delas tanto podem beneficiar-se os "dependentistas" quanto os "independentistas" (partidos). O seu objetivo fundamental é [re-] integrar as falas galegas na Lusofonia por meio da adopção do Acordo Ortográfico de 1990, ultimamente (por fim) ratificado pelo Brasil, por Portugal, por Cabo Verde e esperemos que, em prazo não muito demorado, pelos outros estados de Língua Oficial Portuguesa.

O "isolacionismo", que assumiram as instituições espanholas, dispõe da sua "Real Academia Galega", desviada grandemente dos objetivos fundacionais (1906). De facto, junto das instituições universitárias, dá cobertura académica à política nacionalista do "Reino de España". Tanto umas quanto outras recusaram assistir, mesmo como observadoras, às reuniões dos Acordos do Rio de Janeiro (1986) e de Lisboa (1990), porque, segundo eles insistem, a língua galega (sic) nada tem a ver hoje com a portuguesa, embora na origem (aceitam alguns "isolacionistas") deva admitir-se que foram una.

A AGLP entende que as falas da Galiza, apesar da castelhanização maciça a que estão submetidas, fazem parte da Lusofonia. É por isso que foi organizada a AGLP e, como tal, foi reconhecida em ato público no passado 6 de outrubro (de 2008) pelas duas Academias hoje existentes na Lusofonia: a Academia das Ciências de Lisboa, na pessoa do Prof. Artur Anselmo, delegado do Presidente, Adriano Moreira, e a Academia Brasilera de Letras, na pessoa do Prof. Evanildo Bechara, Tesoureiro da Instituição.

A AGLP, portanto, serve de ponte entre a Lusofonia galega e as outras Lusofonias. Nem supre nem anula o trabalho e atividades das associações normalizadoras ou, antes, [re-] naturalizadoras da Sociedade Galega por meio do idioma que até na legalidade do Reino é reconhecido como "próprio".

(De facto o castelhano foi muito "impróprio" na Galiza, por invasor; ainda hoje, apesar de tudo, continua a ser "impróprio"...)

Você estivo representando a Comissão para a Integração da Galiza no Acordo Ortográfico em Lisboa (1990). Quais são os porquês da necessidade de adoptar tal acordo? Conte-nos a sua experiência em ditas reuniões.

Bom, respondo as duas questões, bem diferentes:

1.- Os motivos e razões para a Galiza fazer parte da Lusofonia e, em consequência, adoptar o Acordo estão acima assinalados: As falas galegas ainda (!!) realizam a língua conhecida mundialmente pelo nome de Português. Dous argumentos, um linguístico e outro político, podem aduzir-se:

a) Mesmo os "isolacionistas" admitem que as falas galegas se acham muito próximas das falas portuguesas, mormente do norte de Portugal, e... do Brasil. É facto que corroboram os emigrantes galegos no país sulamericano.

Mas é que a Filologia românica "tradicional" assim o vinha reconhecendo, até que o grupo compostelano, capitaneado pelo asturiano Constantino García (q.e.p.d.), iniciou o andamento "independentista" (apenas no linguístico e para nada no político!) a respeito do que era "doutrina filológica tradicional". É andamento, aliás, errante que procurou base, sem a achar, primeiro na oralidade e depois no que denominam "lingua per elaborazione".

Este último "procedimento" (e não critério) é simples círculo vicioso. Dizem (e fazem) assim: «Elaboremos para o "galego" uma norma linguística diferente da portuguesa, porque o resultado será uma língua "per elaborazione" diferente da portuguesa.» Depois à gente contam-lhe outro conto... Eis o mistério científico do "isolacionismo" universitário compostelano e ainda mais.

O objetivo é nediamente político, no sentido próprio, como a seguir indico. Contudo, cumpre assinalar a rede de interesses (económicos) criados arredor de tal "elaborazione" para entendermos o que está a acontecer com o Galego... ou contra o Galego.

b) Outro argumento, político, pode ser dado, relacionado, aliás, com a rede de interesses apontada: O projeto nacionalista do Reino de España, em avançado processo de realização, não pode permitir que o Galego seja a mesma língua que a nacional de estados, como o português e o brasileiro. Por isso precisa reduzir a sua grafia a simples "evidencia" de que as falas galegas são e comportam-se como dialetos da "lengua nacional" do Reino de España. Dito por outras palavras, o Reino de España impõe a máscara do castelhano a umas falas (e idioma) que não são castelhanas.

Se por cima, contra a sua própria legalidade, o Reino impõe o ensino dessa máscara como se fosse "palavra de Deus", conseguirá (está a conseguir) que os galegos pensem, agora com "fundamento científico", que o que falam é uma espécie deturpada de castelhano. Então, entre a deturpação e o original, elegem o original; abandonam o "galego", com certeza ajudados eficazmente pelas "campañas de normalización" que os partidos nacionalistas espanhóis (PP, primeiro, e PSOE, depois) levam adiante. Não é por acaso que esses partidos se reservassem tal "gloriosa" atividade, mormente no último governo bipartido.

2.- A experiência fundamental é o facto de sermos "delegação de observadores da Galiza"; assim constamos (anonimamente) nos documentos oficiais, promulgados nos diferentes estados.

Na realidade foi-nos concedida participação maior, sobretudo nas discussões. De facto entre as palavras usadas como exemplos constam lôstrego e brêtema, claramente galegas.

Como linguista, como valoriza a situação atual do galego? É você otimista?

Não como linguísta, porque, se valorizasse como linguísta, funcionário do Reino, deveria responder com uma fugida (educada) do assunto. A minha opinião está dada em artigos e em livros. Estes ainda podem conseguir-se. Cito-os: Que Galego na Escola? (em colaboração), Eds. do Castro, 1984. Silêncio ergueito, Eds. do Castro, 1996. Temas de linguística política, Amizade Galiza-Portugal, 2005.

Otimista? Depende do que se entenda por otimista. Digamos que sou esperançadamente pessimista: A situação é grave; nalgumas zonas, terminal. Mas, se os galegos reagem (e podem: há bastantes a reagir), podem recobrar bem a sua condição ajudando-se dos outros âmbitos da Lusofonia, sobretudo do Portugal nortenho e do Brasil.

Existem grupos bilinguístas radicais... Como há que valorizar a ideologia e atividades desses grupos objetivamente contrários à normalização do galego? Como se deve atuar perante eles?

Essas “cousas” e outras são apenas excrecências do nacionalismo espanhol. No artigo publicado no volume primeiro do Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa, que intitulo «Estado, Nação, Tríade linguística...», exponho as forças ou linhas idiomato-nacionalizadoras que a meu ver agem na Galiza.
Parto da observação do sociolinguísta valenciano Josep Conill. Segundo ele, na Galiza pugnam o “castelhano” (os castelhanistas), o “galego” (os isolacionistas, em confluência com os castelhanistas) e o “português” (os reintegracionistas).

No conjunto “castelhano” cabe diferençar os castelhanistas oficiais (as instituições espanholas todas, incluídas a “Xunta” e as Universidades), os castelhanistas radicais (gb, agli e parecidos) e a massa, indiferente, de usuários de castelhano.

Os grupos bilinguístas radicais são nos factos amparados e utilizados pelas instituições do "Reino de España" para estas aparecerem como menos beligerantes e mesmo neutrais e potenciadoras dos usos de “galego”, quando na realidade aqueles grupos levam adiante, em coincidência pontual com o Reino, o projeto nacionalista español. Este, no fundo e na forma, procura a supressão ou eliminação de “las demás lenguas españolas”, quer dizer, das Comunidades Linguísticas diferentes da castelhana. Basta com ler um pouco atentamente a Constitución de 1978.

Os dicionários ajudam muitas vezes a solidificar concepções altamente ideologizadas da realidade social. Que significa, p. ex., as acepções pejorativas da palavra "galego" na RAE?

A teor da resposta anterior, vale afirmar que os dicionários "oficiais" são o que são e estão para o que estão. Em regra a filologia, nomeadamente a espanhola, e, por extensão, as mal chamadas ciências da linguagem cultivadas nos âmbitos universitários, oficiais, institucionais do Reino de España, servem mormente para dar cobertura "científica" ao projeto nacionalista do estado, uniforme e monárquico.

Portanto, o Diccionario da Real Academia Española, também. Consultem-se os significados que, ao longo de sucessivas edições, atribui a palavras fortes, como AUTONOMÍA. Na última edição define-se: «1. f. Potestad que dentro de un Estado tienen municipios, provincias, regiones u otras entidades, para regirse mediante normas y órganos de gobierno propios.- 2. f. Condición de quien, para ciertas cosas, no depende de nadie.- 3. f. comunidad autónoma.- 4. f. Máximo recorrido que puede efectuar un vehículo sin repostar.- 5. f. Tiempo máximo que puede funcionar un aparato sin repostar.» Nas edições de 1992, de 1984, de 1970, de 1947, de 1936, de 1925 a primeira acepção era: «Estado y condición del pueblo que goza de entera independencia política.» Em edições anteriores, a definição da primeira acepção é ainda mais explícita. Por que os académicos baniram a primeira acepção? Justamente para que os pobrinhos cidadãos do Reino não imaginem que a sua "autonomía" ou "comunidad autónoma" tenha a ver com a independência.

Abundemos um pouco mais. Compare-se, nas definições de ESPAÑOL e de PORTUGUÊS, a caraterização das respetivas línguas. ESPAÑOLA: «3. m. Lengua común de España y de muchas naciones de América, hablada también como propia en otras partes del mundo» [O itálico é meu]. PORTUGUESA: «3. m. Lengua portuguesa.» [Nada se diz sobre o facto de ser falada noutras partes do mundo.] Parece claro que os académicos varrem, politicamente, para a casa sua.

Igualmente poderíamos comparar as definições de GALEGO, VASCO, CATALÁN, VALENCIANO... Apenas na definição de GALEGO se incluem acepções pejorativas. Por que? Justamente porque a Galiza e a sua língua são as realidades mais perigosas para o nacionalismo espanhol. Teria de me estender em explicar esta observação; fique apontado. Noutra ocasião, se houver, explicarei esta afirmação que não é minha, mas do jornal El País.

Descarregar em pdf.:

http://pglingua.org/images/stories/pdfs/2009/060108_antonio_gil_galiza_livre.pdf

Continua o debate sobre a entrevista:

http://www.agal-gz.org/foros/viewtopic.php?p=6294#6294

Última Atualização ( 14 de Xaneiro de 2009 )
 
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