| Entrevistamos António Gil Hernández |
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| 06 de Xaneiro de 2009 | |
“A RAG, junto das instituições universitárias, dá cobertura académica à política nacionalista do 'Reino de España'”
António, pode-nos explicar brevemente o quê significará a Academia Galega da Língua Portuguesa para toda a gente que trabalha em defesa da língua galega, quer do associacionismo, quer do independentismo, etc...? O que é e procuram os ativadores e membros da Academia Galega da Língua Portuguesa consta nos Estatutos da Associação Cultural Pró AGLP (registada conforme com a legalidade) e as Normas de funcionamento da Academia Galega da Língua Portuguesa. Os Estatutos constam publicados no volume primeiro do Boletim da AGLP. Antes de mais e sem pretender obviar questões espinhentas, tenho de afirmar (ou advertir) que ambas entidades são apartidárias: Delas tanto podem beneficiar-se os "dependentistas" quanto os "independentistas" (partidos). O seu objetivo fundamental é [re-] integrar as falas galegas na Lusofonia por meio da adopção do Acordo Ortográfico de 1990, ultimamente (por fim) ratificado pelo Brasil, por Portugal, por Cabo Verde e esperemos que, em prazo não muito demorado, pelos outros estados de Língua Oficial Portuguesa. O "isolacionismo", que assumiram as instituições espanholas, dispõe da sua "Real Academia Galega", desviada grandemente dos objetivos fundacionais (1906). De facto, junto das instituições universitárias, dá cobertura académica à política nacionalista do "Reino de España". Tanto umas quanto outras recusaram assistir, mesmo como observadoras, às reuniões dos Acordos do Rio de Janeiro (1986) e de Lisboa (1990), porque, segundo eles insistem, a língua galega (sic) nada tem a ver hoje com a portuguesa, embora na origem (aceitam alguns "isolacionistas") deva admitir-se que foram una. A AGLP entende que as falas da Galiza, apesar da castelhanização maciça a que estão submetidas, fazem parte da Lusofonia. É por isso que foi organizada a AGLP e, como tal, foi reconhecida em ato público no passado 6 de outrubro (de 2008) pelas duas Academias hoje existentes na Lusofonia: a Academia das Ciências de Lisboa, na pessoa do Prof. Artur Anselmo, delegado do Presidente, Adriano Moreira, e a Academia Brasilera de Letras, na pessoa do Prof. Evanildo Bechara, Tesoureiro da Instituição. A AGLP, portanto, serve de ponte entre a Lusofonia galega e as outras Lusofonias. Nem supre nem anula o trabalho e atividades das associações normalizadoras ou, antes, [re-] naturalizadoras da Sociedade Galega por meio do idioma que até na legalidade do Reino é reconhecido como "próprio". (De facto o castelhano foi muito "impróprio" na Galiza, por invasor; ainda hoje, apesar de tudo, continua a ser "impróprio"...) Você estivo representando a Comissão para a Integração da Galiza no Acordo Ortográfico em Lisboa (1990). Quais são os porquês da necessidade de adoptar tal acordo? Conte-nos a sua experiência em ditas reuniões. Bom, respondo as duas questões, bem diferentes: 1.- Os motivos e razões para a Galiza fazer parte da Lusofonia e, em consequência, adoptar o Acordo estão acima assinalados: As falas galegas ainda (!!) realizam a língua conhecida mundialmente pelo nome de Português. Dous argumentos, um linguístico e outro político, podem aduzir-se: a) Mesmo os "isolacionistas" admitem que as falas galegas se acham muito próximas das falas portuguesas, mormente do norte de Portugal, e... do Brasil. É facto que corroboram os emigrantes galegos no país sulamericano. Mas é que a Filologia românica "tradicional" assim o vinha reconhecendo, até que o grupo compostelano, capitaneado pelo asturiano Constantino García (q.e.p.d.), iniciou o andamento "independentista" (apenas no linguístico e para nada no político!) a respeito do que era "doutrina filológica tradicional". É andamento, aliás, errante que procurou base, sem a achar, primeiro na oralidade e depois no que denominam "lingua per elaborazione". Este último "procedimento" (e não critério) é simples círculo vicioso. Dizem (e fazem) assim: «Elaboremos para o "galego" uma norma linguística diferente da portuguesa, porque o resultado será uma língua "per elaborazione" diferente da portuguesa.» Depois à gente contam-lhe outro conto... Eis o mistério científico do "isolacionismo" universitário compostelano e ainda mais. O objetivo é nediamente político, no sentido próprio, como a seguir indico. Contudo, cumpre assinalar a rede de interesses (económicos) criados arredor de tal "elaborazione" para entendermos o que está a acontecer com o Galego... ou contra o Galego. b) Outro argumento, político, pode ser dado, relacionado, aliás, com a rede de interesses apontada: O projeto nacionalista do Reino de España, em avançado processo de realização, não pode permitir que o Galego seja a mesma língua que a nacional de estados, como o português e o brasileiro. Por isso precisa reduzir a sua grafia a simples "evidencia" de que as falas galegas são e comportam-se como dialetos da "lengua nacional" do Reino de España. Dito por outras palavras, o Reino de España impõe a máscara do castelhano a umas falas (e idioma) que não são castelhanas. Se por cima, contra a sua própria legalidade, o Reino impõe o ensino dessa máscara como se fosse "palavra de Deus", conseguirá (está a conseguir) que os galegos pensem, agora com "fundamento científico", que o que falam é uma espécie deturpada de castelhano. Então, entre a deturpação e o original, elegem o original; abandonam o "galego", com certeza ajudados eficazmente pelas "campañas de normalización" que os partidos nacionalistas espanhóis (PP, primeiro, e PSOE, depois) levam adiante. Não é por acaso que esses partidos se reservassem tal "gloriosa" atividade, mormente no último governo bipartido. 2.- A experiência fundamental é o facto de sermos "delegação de observadores da Galiza"; assim constamos (anonimamente) nos documentos oficiais, promulgados nos diferentes estados. Na realidade foi-nos concedida participação maior, sobretudo nas discussões. De facto entre as palavras usadas como exemplos constam lôstrego e brêtema, claramente galegas. Como linguista, como valoriza a situação atual do galego? É você otimista? Não como linguísta, porque, se valorizasse como linguísta, funcionário do Reino, deveria responder com uma fugida (educada) do assunto. A minha opinião está dada em artigos e em livros. Estes ainda podem conseguir-se. Cito-os: Que Galego na Escola? (em colaboração), Eds. do Castro, 1984. Silêncio ergueito, Eds. do Castro, 1996. Temas de linguística política, Amizade Galiza-Portugal, 2005. Otimista? Depende do que se entenda por otimista. Digamos que sou esperançadamente pessimista: A situação é grave; nalgumas zonas, terminal. Mas, se os galegos reagem (e podem: há bastantes a reagir), podem recobrar bem a sua condição ajudando-se dos outros âmbitos da Lusofonia, sobretudo do Portugal nortenho e do Brasil. Existem grupos bilinguístas radicais... Como há que valorizar a ideologia e atividades desses grupos objetivamente contrários à normalização do galego? Como se deve atuar perante eles? No conjunto “castelhano” cabe diferençar os castelhanistas oficiais (as instituições espanholas todas, incluídas a “Xunta” e as Universidades), os castelhanistas radicais (gb, agli e parecidos) e a massa, indiferente, de usuários de castelhano. Os grupos bilinguístas radicais são nos factos amparados e utilizados pelas instituições do "Reino de España" para estas aparecerem como menos beligerantes e mesmo neutrais e potenciadoras dos usos de “galego”, quando na realidade aqueles grupos levam adiante, em coincidência pontual com o Reino, o projeto nacionalista español. Este, no fundo e na forma, procura a supressão ou eliminação de “las demás lenguas españolas”, quer dizer, das Comunidades Linguísticas diferentes da castelhana. Basta com ler um pouco atentamente a Constitución de 1978. Os dicionários ajudam muitas vezes a solidificar concepções altamente ideologizadas da realidade social. Que significa, p. ex., as acepções pejorativas da palavra "galego" na RAE? A teor da resposta anterior, vale afirmar que os dicionários "oficiais" são o que são e estão para o que estão. Em regra a filologia, nomeadamente a espanhola, e, por extensão, as mal chamadas ciências da linguagem cultivadas nos âmbitos universitários, oficiais, institucionais do Reino de España, servem mormente para dar cobertura "científica" ao projeto nacionalista do estado, uniforme e monárquico. Portanto, o Diccionario da Real Academia Española, também. Consultem-se os significados que, ao longo de sucessivas edições, atribui a palavras fortes, como AUTONOMÍA. Na última edição define-se: «1. f. Potestad que dentro de un Estado tienen municipios, provincias, regiones u otras entidades, para regirse mediante normas y órganos de gobierno propios.- 2. f. Condición de quien, para ciertas cosas, no depende de nadie.- 3. f. comunidad autónoma.- 4. f. Máximo recorrido que puede efectuar un vehículo sin repostar.- 5. f. Tiempo máximo que puede funcionar un aparato sin repostar.» Nas edições de 1992, de 1984, de 1970, de 1947, de 1936, de 1925 a primeira acepção era: «Estado y condición del pueblo que goza de entera independencia política.» Em edições anteriores, a definição da primeira acepção é ainda mais explícita. Por que os académicos baniram a primeira acepção? Justamente para que os pobrinhos cidadãos do Reino não imaginem que a sua "autonomía" ou "comunidad autónoma" tenha a ver com a independência. Abundemos um pouco mais. Compare-se, nas definições de ESPAÑOL e de PORTUGUÊS, a caraterização das respetivas línguas. ESPAÑOLA: «3. m. Lengua común de España y de muchas naciones de América, hablada también como propia en otras partes del mundo» [O itálico é meu]. PORTUGUESA: «3. m. Lengua portuguesa.» [Nada se diz sobre o facto de ser falada noutras partes do mundo.] Parece claro que os académicos varrem, politicamente, para a casa sua. Igualmente poderíamos comparar as definições de GALEGO, VASCO, CATALÁN, VALENCIANO... Apenas na definição de GALEGO se incluem acepções pejorativas. Por que? Justamente porque a Galiza e a sua língua são as realidades mais perigosas para o nacionalismo espanhol. Teria de me estender em explicar esta observação; fique apontado. Noutra ocasião, se houver, explicarei esta afirmação que não é minha, mas do jornal El País. Descarregar em pdf.: http://pglingua.org/images/stories/pdfs/2009/060108_antonio_gil_galiza_livre.pdf Continua o debate sobre a entrevista: |
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| Última Atualização ( 14 de Xaneiro de 2009 ) |
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Seguimos trazendo de novo à luz conteúdos do periódico Gralha que, além do seu evidente interesse histórico, continuam a apresentar certa vigência no actual cenário político. É este o caso da entrevista a Ramom Lôpez-Suevos, do outono de 1997, no que se debulham temas de inegável importância 13 anos depois: a evaporaçom ideológica do nacionalismo institucional (“Começando polo Bloco, dizer que hoje é mais um partido do sistema onde nom se aprecia ideologia nenhuma”), a obsolescência dos partidos (“nos últimos anos, as únicas cousas interessantes nascérom à margem dos partidos, desde o reintegracionismo até o movimento de insubmissos”), a dissociaçom entre ideologia de vida e ideologia eleitoral (“Umha das cousas mais interessantes a dizer do nacionalismo nos últimos anos é que quanto mais aumentam os votos menos se nota na gente, por exemplo na evoluiçom da língua”), o colonialismo económico e cultural (“Desde logo há umha subordinaçom económica, umha opressom política e um esmagamento cultural total do país. Tudo isto está concatenado. Poderiamos-lhe chamar colonialismo versom europeia”), a independência como única opçom democrática (“Opto pola independência total. Independência até para cedê-la ou para negociá-la. Na Europa desde logo seria melhor ser um estado que umha regiom da Espanha”), a relaçom com a lusofonia (“Por outra parte, há que primar por todos os meios a relaçom com Portugal por razões culturais, geopolíticas e de contrarrestas as forças centrípetas e também por razões económicas”) e mesmo a situaçom da universidade galega (“A universidade sempre foi um factor colonizador. Sempre o foi e segue-o sendo mas hoje em dia nom se vê resposta”)
Neste ano que está arrincando o periódico Novas da Galiza dá outro passo adiante na consolidaçom do seu projecto informativo. Lá ao longe fica aquele março de 2002, entre protestos contra a maré preta e guerra do Iraque, quando via a luz o primeiro número. No caminho, atrancos de todo tipo incluíndo denúnicas das autoridades espanholas mas, sobretudo, a firmeza de um projecto que se mantivo firme, sem ceder nas suas convicçons. Falamos aqui com Carlos Barros, o seu director, que fai balanço da vida do Novas da Galiza e os novos reptos para o futuro.