| Jorge Paços opina sobre o Eixo |
|
|
|
| 30 de Outubro de 2007 | |
'Inocentes'
e, silenciosamente, bota-se um peido Provérbio etíope Som tam insensatos os homes que umha violência respeitada remata por parecer-lhe um direito C. A. Helvétius 'Nom som delinquentes, som inocentes!' gritavam neste domingo nas ruas de Santiago muitas das mais de 6000 pessoas que reivindicamos liberdade para os vizinhos do Eixo condenados a 7 anos de prisom por agredir, segundo a Justiça, o agente Luis Gómez Vázquez em 1998. Todo o processo judicial e social desenvolvido desde a altura espiu perante os olhos incrédulos de muitos cidadáns e cidadás a funçom repressiva da Justiça, os sujos métodos de trabalho da Polícia e a vigência incontornável da dupla vara de medir . Aliás, os condenados fôrom a carne de canhom necessária para o escarmento na praça pública. Conde Roa, extremista católico onde os haja e candidato à alcaldia local polo PP, captava à perfeiçom a finalidade pedagógica deste processo quando, mesturando religiom e Justiça, exigia dos condenados “que pidam perdom (sic) publicamente” para o seu partido poder presionar em favor do indulto governamental. Desconheço se Simom, Suso e José som “inocentes” ou “culpáveis” dos factos polos que estám condenados. É-me indiferente: a solidariedade com os Três do Eixo e com a sua luita, assi como a denúncia da brutal repressom de que som objecto como cabeças de turco nas que se pune a resistência de toda umha parróquia, merece ser independente de se tenhem ou nom responsabilidades penais nos factos. Dizem os seus convizinhos e convizinhas, presentes no 14 de Julho de 1998, que som “inocentes” e essa é a única voz digna de crédito em toda esta trama infame. Serám, portanto, “inocentes”. Contodo, é notório que no dia de autos a comunidade humana do Eixo se defendeu com as maos das cargas do 091. De facto, um dos agressores foi ferido. Esta violência mínima, legítima e defensiva nom foi a única -nem sequer a principal- que existiu no conflito: O Eixo suportou outras violências como a perda continuada de vidas humanas na N-525 devido à incompetência institucional; o saqueio das famílias da parróquia por parte do Estado para indenizar com 156.000€ o profissional da repressom Luis Gómez; a prolongaçom durante quase dez anos dum calvário judicial que é modelo de tortura branca e espólio material; a necessidade de atençom psicológica que esta situaçom provocou em determinadas pessoas, etc. No entanto, parece evidente que ninguém se sentará no talho dos acusados para responder por tanta violência e sofrimento: ter responsabilidades penais deve ser a exclusiva dos que temos baixo poder adquisitivo e luitamos contra os poderosos. Dalgum modo, Simom, Suso e José tenhem a desgraça de reunir nas suas pessoas ambas condiçons. Sendo assi as cousas, o que nos compromete a nós a aceitar o sistema judicial? Quem nos pode exigir algo se delinquentes engaravatados e uniformados agredem, roubam, matam, mentem e espoliam atreu e impunemente, enquanto luitadores populares som encarcerados? Por que razom vamos respeitar as regras dum jogo onde as cartas estám marcadas para ganhar os de sempre? Finalmente: se para a Justiça a violência administrada polo Estado nunca tem “culpáveis” e, quando existem, indultam-se e promocionam-se com ascensos, por que ela, que se diz “ecuánime”, castiga a violência social em defesa de direitos ou, como ocorre nesta circunstáncia, do direito à vida? Além destas evidências e questons que enquadram o vergonhento processo contra O Eixo, centrarei-me num aspecto lateral que, agora, à vista da gravidade e a imediatez dos factos, quiçá pareçaa secundário, mas que indo além da actualidade se calhar tenha transcendência: trata-se da validez ou invalidez da agitaçom pública da “inocência” como estratégia para (tratar de) esquivar a repressom e activar apoios por parte dum movimento social seriamente retaliado. O discurso público que vinca na “inocência” dos três condenados como razom para exigir a sua liberdade contém grandes doses de lógica do poder. De facto, admite implicitamente que de serem os autores materiais dos factos de que fôrom acusados os Três do Eixo mereceriam entrar em prisom. Esse discurso fácil obvia assi que a Justiça que pune Simom, Suso e José jamais encontra responsáveis para a violência policial, os mortos da N-525 e o sufrimento de toda umha parróquia e que, portanto, é apenas umha Justiça de classe, ilegítima ou, como diziam antes, “um aparelho repressivo do Estado burguês”. Vistas assi as cousas é lógico que personagens como Suso de Toro, Mercedes Rosón, Paco Jorquera ou Néstor Rego, fieis crentes e servos do Estado Democrático de Direito, se sintam cómodas na mobilizaçom do 21-O. O encendido discurso do literato amigo de ZP nom vinha deste modo mais que a redondear a cerimónia e exigir que o que nos contam que é o Estado de Direito espanhol se faga de vez umha realidade. Ouvir gritar a consigna Nom som delinquentes, som inocentes! a centos de pessoas que pola sua extracçom sócio-económica configuram um “grupo de risco” à vista da Justiça classista e repressora tem um algo de paradoxo tragicómico inexplicável sem botar mao a termos como “alienaçom” e “falsa consciência”. O purista dogmático de esquerdas provavelmente riscasse de ideologicamente inassumível a forma em que a vizinhança do Eixo argumenta a reivindicaçom da liberdade dos condenados e optasse por distanciar-se da mesma para proteger a sua ridícula “pureza”. Contodo, mesmo sendo verdade que certas linhas argumentais consolidam na gente a lógica perversa do poder, nom deveriamos perder de vista neste caso a dialéctica entre o discurso público e o discurso oculto: o povo que sai à rua é perfeitamente conhecedor da calanha moral de juízes, políticos e polícias que ocupam os estratos superiores da pirámide. Nom precisa do ideólogo iluminado para “saber”. Contodo, como sujeito inteligente, esse povo nosso é também consciente da desfavorável correlaçom de forças em que se desenvolve: evita as batalhas a campo aberto, desconfia do martírio como estratégia e argumenta as suas exigências desde a lógica dominante forçando a que fracçons do poder –instituiçons, partidos, De Toro, Rosón, Jorquera, etc.- se alineem da sua parte. Desde a distáncia física e afectiva dos lugares e contornos sociais onde se coze a luita contra a repressom do Eixo e, especialmente, desde a atalaia ideológica, esta táctica risca-se fácil e gratuitamente de “contraditória” e “oportunista”, embora à vista das circunstáncias reais e concretas apareza como a mais inteligente e razoável. Contodo, exigir a terceiro “práticas superiores” desde o vanguardismo real ou imaginado combinado com a distáncia física e militante nom deixa de ser um exercício tam ridículo como estéril e elitista... Longe dos focos e a praça, o nosso povo sincera-se: diz em baixinho que Gómez Vázquez queria cobrar 40.000€ mais para ele assinar pessoalmente a petiçom de indulto ante o Consejo de Ministros. Diz também que a Polícia espanhola “contratou” conhecidos quínquis da cidade para retirar os cartazes que convocavam à mobilizaçom de domingo, que agentes à paisana os ciscárom de noite por bairros e parróquias e que, após fazerem o “trabalho”, recolhiam-os nos mesmos pontos em que foram abandonados. Diz em baixinho o nosso povo que juízes, políticos e polícias som “filhos de puta”, que a democracia é umha patranha e que o dinheiro compra sentenças e indulgências. E nós, que conhecemos algo da psicologia do nosso povo, à hora de caracterizá-lo sempre poremos mais atençom ao que nos sussurra ao ouvido com medo a ser descuberto do que ao que grita na praça pública quando trata de aplacar a fúria dessatada dos poderosos, que, por umha vez, sentírom a sua própria medicina na pessoa dum dos seus servos. Jorge Paços Meirol |
| < Anterior | Próximo > |
|---|









Hoje entrarám na cadeia de Teixeiro os três vizinhos do Eixo acusados de agredir um polícia espanhol, durante a resposta a umha carga em 1998, que pretendia acalar a reivindicaçom de melhoras na paróquia. Apesar da petiçom massiva de indulto, a justiça aplica as suas receitas. Jorge Paços Meirol, que assistiu à mobilizaçom solidária, envia-nos a sua opiniom sobre os feitos.
Seguimos trazendo de novo à luz conteúdos do periódico Gralha que, além do seu evidente interesse histórico, continuam a apresentar certa vigência no actual cenário político. É este o caso da entrevista a Ramom Lôpez-Suevos, do outono de 1997, no que se debulham temas de inegável importância 13 anos depois: a evaporaçom ideológica do nacionalismo institucional (“Começando polo Bloco, dizer que hoje é mais um partido do sistema onde nom se aprecia ideologia nenhuma”), a obsolescência dos partidos (“nos últimos anos, as únicas cousas interessantes nascérom à margem dos partidos, desde o reintegracionismo até o movimento de insubmissos”), a dissociaçom entre ideologia de vida e ideologia eleitoral (“Umha das cousas mais interessantes a dizer do nacionalismo nos últimos anos é que quanto mais aumentam os votos menos se nota na gente, por exemplo na evoluiçom da língua”), o colonialismo económico e cultural (“Desde logo há umha subordinaçom económica, umha opressom política e um esmagamento cultural total do país. Tudo isto está concatenado. Poderiamos-lhe chamar colonialismo versom europeia”), a independência como única opçom democrática (“Opto pola independência total. Independência até para cedê-la ou para negociá-la. Na Europa desde logo seria melhor ser um estado que umha regiom da Espanha”), a relaçom com a lusofonia (“Por outra parte, há que primar por todos os meios a relaçom com Portugal por razões culturais, geopolíticas e de contrarrestas as forças centrípetas e também por razões económicas”) e mesmo a situaçom da universidade galega (“A universidade sempre foi um factor colonizador. Sempre o foi e segue-o sendo mas hoje em dia nom se vê resposta”)